Fenômeno
Bullying
Mário Felizardo*
Quando
abordamos o tema “violência nas escolas”, nos vêm
em mente formas explícitas de violência: vandalismo, pixação,
rixas e agressões contra professores. Porém esquecemos
– ou desconhecemos – que a escola convive com uma violência
ainda mais cruel, muitas vezes, ignorada ou não valorizada da
devida forma por pais e professores.
Trata-se do “Fenômeno Bullying”, definição
universal para o conjunto de atitudes agressivas, repetitivas e sem
motivação aparente perpretadas por um aluno – ou
grupo – contra outro, causando sofrimento e angústia.
Estamos falando do isolamento intencional, dos apelidos inconvenientes,
da amplificação dos defeitos estéticos, do amedrontamento,
das gozações que magoam e constrangem, chegando à
extorsão de bens pessoais, imposição física
para obter vantagens, passando pelo racismo e pela homofobia, sendo
“culpa” dos alvos das agressões, geralmente, o simples
fato de serem “diferentes”, fugirem dos padrões comuns
à turma – o gordinho, o calado, o mais estudioso, o mais
pobre.
As vítimas dessa violência silenciosa presente em todas
as escolas, sem distinção de classe social ou região
geográfica, sofrem caladas e de forma contínua, tornando
sua vida escolar um martírio. As chagas abertas na alma desses
meninos e meninas dificilmente cicatrizam.
Os agressores, normalmente jovens “populares”, provenientes
de um ambiente familiar desestruturado e de modelo autoritário,
também sofrerão as conseqüências da falta de
limites e da não-afirmação de valores vivenciados
nessa fase da vida. Pois, o que esperar desses jovens que fazem dos
mais frágeis objetos de diversão e prazer, senão
adultos de atitudes anti-sociais?
Há os que não agridem nem são vitimados, porém
convivem resignados com esse indesejado desequilíbrio de poder.
Sementes de adultos que cruzam os braços frente às injustiças
e ao abismo das desigualdades de nosso país.
Para exemplificar, uma pesquisa na Europa que acompanhou jovens que,
entre 12 e 16 anos eram agressores, verificou que até os 24 anos,
60% deles tinham pelo menos, uma acusação criminal.
Dados os prejuízos psicológicos que essa forma de agressão
produz temos que reconhecer e procurar sanar, também, a íntima
ligação do fenômeno com o baixo rendimento escolar,
o absenteísmo e a evasão escolar.
A partir da análise das conseqüências individuais
e coletivas da participação de cada um dos envolvidos,
é evidente que o bullying praticado nas escolas de hoje, projetado
para o futuro, significa violência doméstica, alcoolismo
e drogadição, assédio moral no trabalho, criminalidade
e altos investimentos na área da saúde, na construção
de presídios e na estrutura da justiça e da segurança.
Nesse sentido, outros países tratam o tema com a maior relevância.
Podemos afirmar que estamos, pelo menos, 15 anos atrasados nessa questão.
Assim sendo, juntamente com a professora Jane Pancinha, desenvolvemos
o projeto de cunho social denominado “Diga Não ao Bullying”
que visa a conscientizar, motivar e dar ferramentas para que a comunidade
escolar desenvolva estratégias de combate a essas agressões
veladas.
Para cada vítima que encontre entendimento para seu sofrimento
ou para cada agressor que se dê conta de sua transgressão,
renova-se a esperança de um mundo mais justo e solidário.
Mário
Felizardo é Oficial de Proteção da Infância
e da Juventude
do Poder Judiciário e
coordenador do projeto
Iniciativa por um Ambiente Escolar Justo e Solidário.