QUEM
BATE PARA ENSINAR ENSINA A BATER
Infligir
dor para educar uma criança não é exercer autoridade
por Mário Felizardo*
Ao dizer não
aos castigos físicos e humilhantes impostos às crianças,
o Brasil dará um grande passo no processo civilizatório
de nossa sociedade, juntando-se a países como Suécia,
Finlândia, Dinamarca, Noruega, Áustria e Alemanha que já
aboliram essa prática cruel e covarde. Tramita no Congresso Nacional
Projeto de Lei que prevê o respeito aos direitos da criança
e do adolescente de não serem punidos fisicamente - mesmo que
de forma moderada e sob o pretexto “pedagógico” -
não se tratando “todavia, da criminalização
da violência moderada, mas da explicitação de que
essa conduta não condiz com o direito”, bem como, é
a base para a construção de uma cultura da paz e da não-violência.
Sabendo-se que a lei, por si só, teria pouca força para
mudar nossa cultura machista (do poder pela força física
e autoritária) e “adultocêntrica” (os filhos
são vistos como propriedade dos pais) traz grande esperança
a campanha “Não bata. Eduque” que, através
de grandes veículos de comunicação, impregnará
a consciência coletiva dos males que esse modo de “educar”
acarreta na formação moral do indivíduo e de suas
conseqüências nas relações da sociedade. Entre
tantas razões para abolir o uso da “violência pedagógica”,
me bastaria o ditado “quem bate para ensinar ensina a bater”,
no qual fica lógico que no tapa, no beliscão, no empurrão,
os pais estão dizendo aos seus filhos que conflitos se resolvem
com violência.
Num viés mais “científico”, Piaget aponta,
quanto à evolução moral da criança, que
até 10/12 anos o indivíduo respeita as regras pelo controle
externo imposto, porém, a partir dessa idade, irá comportar-se
de acordo com suas regras e com os valores construídos até
então. Portanto, o “tapa pedagógico” não
cumprirá mais seu objetivo de contenção e o jovem
irá responder com o que aprendeu: violência. Infligir dor
ou humilhação para educar uma criança não
é exercer a autoridade inerente e obrigatória dos pais
e, sim, a falência desta.
A criança que apanha e é humilhada em casa tem forte tendência
a repetir esse comportamento na escola, sendo autores de bullying (atitudes
agressivas, freqüentes e sem razão aparente contra colegas),
tema ao qual nos dedicamos a pesquisar e a promover seu combate através
do Projeto Diga Não ao Bullying. “Não bata. Eduque”
e “Diga Não ao Bullying”, eis aí ações
concretas que, além de diminuir o sofrimento de crianças
e jovens, contribuem de forma efetiva e de longo prazo para a diminuição
da violência, grande anseio da sociedade moderna.