Guia
de promoção de resiliência
Cenise Monte Vicente*
Introdução
Resiliência
é um termo utilizado para definir a capacidade humana de
passar por experiências adversas sucessivas sem prejuízos
para o desenvolvimento.
Algumas
pessoas, cujas biografias foram marcadas por tragédias acumuladas,
chamaram a atenção dos estudiosos da psicologia do
desenvolvimento pelo modo de responder às dificuldades e
de transformar tais eventos em promotores de habilidades para a
vida.
Para
afirmar que o desenvolvimento das potencialidades do sujeito não
foi afetado negativamente pelas situações de risco
vividas, proponho identificar se o sujeito é capaz de amar,
de trabalhar e se assume seus direitos e deveres como cidadão.
Resiliência
é um termo utilizado para definir a capacidade humana de
passar por experiências adversas sucessivas sem prejuízos
para o desenvolvimento
Pensei em propor este guia: um conjunto de recomendações
para operadores sociais que trabalham com crianças e adolescentes
cujas vidas são marcadas pela violência.
Acredito
que estas sugestões possam ser úteis especialmente
para os jovens que responderam de modo irado às condições
adversas de suas vidas. Quando o sistema é destruidor, aquele
que manifesta a ira revela ter preservado aspectos fundamentais
da condição humana. Existe um acúmulo de conhecimento
sobre resiliência que nos permite afirmar que é possível
promovê-la.
A
resiliência é um fenômeno psicológico
construído e não é tarefa do sujeito sozinho.
As pessoas resilientes contaram com a presença de figuras
significativas, estabeleceram vínculos, seja de apoio seja
de admiração. Tais experiências de apego permitiram
o desenvolvimento da auto-estima e da autoconfiança.
Outro
motivo para a elaboração deste trabalho é o
entendimento de que estamos diante de uma ferramenta, um conceito
com potencial de instrumentalizar os trabalhadores da área
da infância para a educação, para a vida e para
a cidadania.
A
resiliência tem uma dimensão ética que não
pode ser negada. Ela só é possível quando existe
esperança no futuro e quando existe um sentido anunciado,
uma meta, um horizonte ético que nos coloca para frente.
Um dos fatores de destruição do trabalho de um educador
social ao lidar com vidas difíceis é a descrença
que nasce do modelo do dano, no qual predomina a observação
apenas dos problemas e das dificuldades, algumas vezes com muita
precisão, mas que não insere na análise qualquer
perspectiva ou alternativa de resolução.
O
modelo fundamental para o desenvolvimento da resiliência é
o modelo do desafio, no qual tanto o reconhecimento do problema
quanto das soluções estão presentes. A promoção
da resiliência, portanto, serve não apenas aos meninos
e às meninas em dificuldade, mas à toda comunidade
comprometida com estas vidas.
O
primeiro grande passo diz respeito à própria equipe.
Boa parte do problema tem relação com as dificuldades
do próprio mundo adulto que fracassou com estes jovens
A
equipe realiza seu trabalho em determinado contexto institucional.
Ao chegar às instituições, as pessoas encontram
muitas rotinas, regulamentos, tradições, modos de
compreensão e de relacionamento estabelecidos. As instituições
têm memória, mas nem sempre ela é explícita
ou consciente: muitas vezes são gestos que se repetem e ninguém
sabe explicar a origem. É neste ponto que o Estatuto da Criança
e do Adolescente encontra enormes dificuldades de implantação,
já que ele exige a criação de um repertório
novo.
O
antigo repertório do Código de Menores explicava-se
pela função do internato - exclusão ou seqüestro
social, associada a uma dinâmica centrada na vigilância
e na punição. A distância da comunidade permitia
o pacto de omissão e silêncio, enquanto na clausura
só restava aos presos transgredir ou acatar a morte civil
em silêncio.
A
construção de um repertório novo dependerá
da capacidade criativa e democrática dacomunidade institucional,
incluindo aí seus destinatários e suas famílias.
O
objetivo deste Guia é de colaborar com alguns elementos necessários
neste processo de transformação.
Planejamento
Um
cotidiano democrático exige construção de atitudes
pouco freqüentes em nossos repertórios. Esta construção
passa por sensibilização, compreensão e treinamento
A equipe deve definir suas metas, imaginar o futuro, estabelecer
objetivos realizáveis, que sejam ao mesmo tempo "abrangentes
e detalhados". A meta transversal, aquela que deve permear
todas as demais, é a construção de um ambiente
solidário e promotor do potencial de todas as pessoas envolvidas
no trabalho, seja na condição de operador seja como
destinatário.
Planejar
de modo democrático e participativo possibilita que todos
os setores participem da construção do quê fazer.
Permite que os diferentes atores institucionais conheçam
os problemas e construam as soluções que serão
implementadas, dando sentido para suas ações e inserindo-as
num conjunto articulado voltado para metas comuns.
A
experiência de planejar deve sempre contemplar os períodos
de avaliação, na qual as operações,
o cronograma e os responsáveis possam ser discutidos com
todo o grupo avaliador. Com os resultados parciais avaliados é
possível corrigir o plano de trabalho. Planejar/avaliar/planejar
permite romper com o modelo do dano, pois o famoso discurso do "é
muito difícil" deve ser substituído pelo "podemos
fazer".
Planejar
não dispensa o treinamento. Os hábitos e os modos
de responder às situações de conflito têm
uma matriz muito autoritária em nosso país. Um cotidiano
democrático exige construção de atitudes pouco
freqüentes em nossos repertórios. Esta construção
passa por sensibilização, compreensão e treinamento.
A capacitação permanente da equipe é um elemento
fundamental na formação dos operadores.
Recomendações
para a vida cotidiana
1)
A construção do sentido
As
condições adversas de vida podem levar as pessoas
a uma atitude existencial provisória, um modo de ocupar-se
apenas com o presente baseando-se numa atitude fatalista, de que
"não tem jeito", "não adianta".
A
construção do sentido é acompanhada da introdução
do futuro. Mas, este futuro precisa ser experimentado, por isso
os projetos iniciais têm que ser de curto prazo, viáveis
e concretos. As atividades lúdicas, a organização
de uma festa, de um campeonato, permitem que o potencial se expresse
e, simultaneamente, haja prazer ou satisfação.
2)
Calendário Baiano
Tão
logo uma atividade tenha sido realizada, uma nova deve mobilizar
o grupo, de modo a introduzir novos sentidos. A sucessão
de sentidos pode solicitar atitudes diferentes, pode criar possibilidades
de novos destaques, pode criar espaço para que uma aquisição
recentemente adquirida possa aprimorar-se e oferece novos papéis,
retirando os envolvidos das estereotipias freqüentes nas experiências
crônicas.
O
futuro, a auto-estima e a autoconfiança estão sendo
trabalhados pela tarefa.
3)
O sentido e o lugar no mundo
Junto
com a construção da vontade de sentido, podemos fomentar
na criança e no jovem um projeto de lugar no mundo, no futuro.
Os jovens que não conseguem imaginar seus futuros são
os mais frágeis. Se o futuro não existe, ou se a pessoa
não "ocupa" um lugar no mundo no futuro, não
há esperança, não há desafio.
4)
O ensino fundamental e o sentido
Muitos
jovens não conseguem entender para que serve o conhecimento.
Fica difícil dedicar-se a algo cuja finalidade não
está clara ou que não tem gancho com a vida e a perspectiva
do aluno.
Devido
a isto, torna-se fundamental estabelecer os nexos entre as matérias
básicas e as profissões. Assim, o aluno pode entender
para quê serve a matemática, a língua portuguesa,
as ciências, pois, junto com estes saberes, existem modos
de estar no mundo, por meio da produção. Cria-se uma
ponte entre o ensino, o mundo e o futuro. Aprender passa a fazer
sentido pessoalmente.
5)
A auto-estima
Muitos
meninos têm uma auto-imagem negativa. Cresceram ouvindo "profecias"
extremamente negativas e desqualificadoras. A equipe que desejar
desenvolver no jovem amor por si mesmo e pelos demais precisa desconstruir
a imagem que o menino trouxe. Esta desconstrução não
é difícil. Dependerá do olhar da equipe para
as qualidades e potencial do jovem.
6)
Cuidar-se e cuidar
Os
cuidados com o próprio corpo têm um importante papel
na promoção da auto-estima. Estimular a capacidade
de cuidar de si mesmo. E simultaneamente fomentar os cuidados com
os ambientes onde o cotidiano transcorre. A dimensão estética,
as cores, as formas e a construção de "coisas
belas" devem ser estimuladas. É claro que esta estética
virá marcada pelos interesses da adolescência, da cultura,
da época, mas o que nos interessa é o movimento de
preservação, de carinho, enfim, da autopreservação.
7)
Livro de ocorrências novo
Nas
instituições, existe sempre um registro das chamadas
"ocorrências", destinado a anotar os problemas,
os erros, as brigas, as medidas adotadas frente aos conflitos. Este
livro precisa mudar de enfoque.
Quando
o menino acerta, quando eles se entendem, quando revelam suas qualidades
e interesses, onde fica o registro? Precisamos começar a
anotar as soluções, as possibilidades.
Se
esta mudança é estabelecida, começamos a fazer
profecias positivas e o adolescente tem a oportunidade de mudar
sua auto-imagem e sua postura.
8)
Os gestos anti-sociais
Quando
o menino ou menina são agressivos ou "inadequados",
o que fazer?
Antes
de atribuir os motivos do jovem e condená-lo com alguma medida
disciplinar, precisamos entender o acontecimento. Entender suspendendo
a tendência de classificar entre certo e errado, bom e mau.
A maioria destes atos expressa um pedido de socorro ou um fragmento
importante da vida do sujeito.
Compreender
uma conduta fora do campo onde ocorreu é impossível.
A biografia e o contexto são fundamentais.
9)
Não contra-atuar
Quando
algum direito fundamental está ameaçado, como, por
exemplo, o direito de aprender, os programas podem desenvolver um
SOS
Quando o jovem apresenta um comportamento disruptivo, é muito
freqüente que a resposta correspondente do operador seja uma
espécie de espelho. Se o menino está, por exemplo,
nervoso, o educador entra na cena como um complementar, fazendo
com que aquela atualização de algo biográfico
ou pedido de socorro se transforme em questão disciplinar
e não numa possibilidade de diálogo e elucidação
das origens da atitude.
10)
Desaquecendo as cenas
Estes
momentos de tensão são quentes, dominados por escassa
disposição para ouvir e compreender. São necessários
procedimentos de desaquecimento. Além de não complementar
a cena violenta, o operador deve facilitar a expressão verbal
de todos os protagonistas, retirar o conflito da dimensão
dramática e introduzi-lo num campo do diálogo, no
qual poderá ocorrer elaboração.
11)
As pequenas alegrias
Momentos
de conversas coletivas, de cantoria, de leitura em grupo, de narrativa
popular podem ser momentos de restauração, de trégua
e também de elaboração. As histórias
têm sempre uma mensagem, uma lição. Mas, a atmosfera
criada nestas atividades talvez sejam mais importantes do que o
recado verbal. É a melodia da canção.
12)
Humor
O
bom humor indica flexibilidade, plasticidade mental. Revela a capacidade
de fazer de conta, de olhar as coisas com certa distância,
com crítica. Tal capacidade associa-se à capacidade
de rir. O riso indica certo distanciamento dos fatos, cria a possibilidade
para que os eventos possam ser entendidos sem afetar a pessoa de
modo imediato.
Aprende-se
a relativizar.
13)
Sistema de Socorro
Quando
algum direito fundamental está ameaçado, como, por
exemplo, o direito de aprender, os programas podem desenvolver um
SOS. O sistema de socorro deve atender a todos os envolvidos na
situação de "risco": operadores e educandos.
Muitas
situações resultam em exclusão ou expulsão.
Se este movimento puder ser substituído por processos de
reinclusão qualificada, todo mundo aprende.
14)
Direito à ternura
Os
vínculos são muito importantes para a vida. Bebês
morrem de carência quando não são amados. O
afeto é tão importante quanto as vitaminas. Ele envolve
um campo novo, que é difícil de expressar em lei.
Trata-se do direito à ternura.
*
Cenise Vicente é psicóloga, foi oficial de projetos
do UNICEF e presidente do Conselho da Agência de Notícias
dos Direitos da Infância (ANDI). Atualmente é diretora
da empresa de consultoria Oficina de Idéias e coordenadora
do Projeto Envolver da Rede Social São Paulo.
Fonte:
http://www.promenino.org.br/Ferramentas/Conteudo/tabid/77/ConteudoId/829843a9-3f3c-471b-a70b-8117f518ff38/Default.aspx
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