''O desejo de aprender é a melhor prevenção contra a violência na escola''

Fonte: site nova escola. Reportagem de Karina Yamamoto, de João Pessoa (PB)


A afirmação é do pesquisador francês Jacques Pain, que defende a escola como um lugar em constante transformação e não um estabelecimento, no sentido estrito da palavra.


Foi preciso esperar a frase ser traduzida para o português para que a platéia de quase 200 conferencistas reagisse. Burburinhos aqui e acolá surgiram. O professor prossegue a explanação do seu ponto de vista e arremata: “Explicar é impedir que a criança aprenda e, nesse sentido, é matar a inteligência dela”. A platéia emudeceu.

Professor da Université Paris X, Jacques Pain já pesquisa violência escolar e os meios de preveni-la há cerca de 20 anos e critica o modelo tradicional de escola – que, em suas palavras, “privilegiou o saber dos professores, deixando os alunos em segundo plano”. Para ele, é preciso levar em conta que não existe um profissional que detenha o saber. Por isso, é preciso distinguir a escola da instituição que ela é. Ele aponta ainda que a escola é um lugar de vivacidade psíquica em que devem ser considerados os desejos dos alunos, dos pais e dos professores.

Esse foi um dos momentos que marcaram o debate trazido pela mesa sob o titulo “Escola, convivência e violências”, que ocorreu nesta manhã na Conferência Internacional Educação, Globalização e Cidadania, em João Pessoa. Além do professor Pain, participaram ainda: Ana Mercês Bahia Bock (PUC-SP), Bernard Charlot (Universidade Paris VII e Universidade Federal de Sergipe), Fernando César Bezerra de Andrade (Universidade Federal da Paraíba) e Maria Eulina Pessoa de Carvalho, também da UFPB. A coordenação foi de Vera Esther Ireland (UFPB).

Expressão do aluno
Também de maneira bastante categórica, o professor Pain afirmou que dar voz às crianças e aos jovens é o melhor caminho para encontrar o desejo de aprender. “Na medida em que os alunos se percebem capazes de se expressar e de se fazer entender, na medida em que os alunos conseguem se comunicar, eles sabem e, porque sabem, entendem que podem aprender”, disse o pesquisador. Seus conceitos focam a todo o momento o aluno – Pain se contrapõe a um modelo de escola dona dos poderes e com os saberes todos nas mãos. “Quando ela (a escola) ocupa todos os espaços, ela ocupa espaços demais”, conclui. Seu conselho final aos participantes

Já a professora Ana Bock se opôs à idéia de trabalhar a questão do desejo. “Acho complicado e arriscado tentar tratar disso na escola”, disse. “Acho que temos de dar conta, de forma prazerosa, da função social da escola.” Ela havia se referido anteriormente à importância de tratar os alunos como sujeitos que trazem um histórico de significações – bagagem que deve ser levada em conta na construção da relação de todos os agentes educacionais. Para ela, a violência dentro do espaço escolar é também resultado do não espelhamento das crianças e dos jovens como indivíduos nas relações escolares. “As dificuldades sociais vêm com as crianças e se sentam ali nas carteiras”, completou a professora que chamou a atenção da platéia para considerar a violência como uma construção e não um comportamento do grupo.