Reproduzimoa aqui
a entrevista dada pelo siquiatra Carlos Alvarenga Valim à
reporter Jacqueline Lopes do site Midiamaxnews
Caso
Isabella Nardoni é apenas uma ponta do iceberg da violência
infantil, diz psiquiatra.
Formado
em psiquiatria pela PUC (Pontifícia Universidade Católica)
de Campinas (SP), Carlos Alvarenga Valim, de 44 anos, enxerga várias
nuances no caso da morte da menina Isabella Oliveira Nardoni, de
5 anos. No dia 29 de março, a criança foi jogada do
6º andar do prédio onde o pai morava com a madrasta
e os irmãozinhos na capital paulista.
O especialista acredita que a repercussão
do caso em todo o País seja apenas uma parte da tamanha rede
de violência enfrentada por milhares de crianças brasileiras.
Algumas delas ganham destaques no jornal, mas a maioria não,
diz.
O Caso Isabella é discutido em todos os
lugares, como nos pontos de ônibus, barzinhos, redações,
repartições públicas e também nos corredores
da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco), onde ele leciona
para os alunos de Direito e Psicologia. Valim recebeu a reportagem
na sua salinha de consultas no Hospital Clínica. Do lado
de fora, pacientes o aguardavam.
O especialista é cauteloso ao comentar a
suspeita contra o pai da menina, Alexandre Nordoni. Ele teme que
seja a repetição do caso Escola Base (*) e por isso,
destaca a importância das provas cientificas, ou seja, dos
laudos periciais. Mas, diante da hipótese, afirma que o autor
possa sofrer de uma patologia como esquizofrenia ou depressão
e até ser uma pessoa que não seja doente e sim tenha
transtorno de caráter, o que para ele é incurável.
Midiamax - O que leva um pai ou uma mãe a
matar o próprio filho?
Psiquiatra Luiz Carlos Valim – O que acontece
no geral? Os pais têm alguma alteração mental
ou emocional. Normalmente são pessoas envolvidas com alguma
substância ilegal, ou são muito imaturos, muito jovens,
ou nível intelectual baixo. A criança quando está
exposta a algum tipo de agressividade, nós temos que ver
o contexto sócio-cultural. Quando uma criança é
exposta a esse tipo de situação, temos que ver o tipo
de atitude. Deu nos jornais que foi encontrada marcas de esganadura,
um tipo de asfixia e na realidade você vê que é
necessária a ação de um agente estranho e normalmente
a causa é homicida, ela é uma tentativa de morte.
Midiamax – Como o senhor faz essa interpretação?
Luiz Carlos Valim – Toda questão de
violência que envolve todo e qualquer ser humano, antes de
qualquer coisa, é uma questão de briga de forças.
Na verdade é alguém que está de alguma maneira
exercendo poder sobre essa pessoa. É o que você vê
nos crimes de natureza violenta e nos de natureza sexual. A questão
não é prazer é a força e o poder que
você exerce sobre o outro.
Midiamax – Mas, o que move uma pessoa a isso?
Luiz Carlos Valim – Primeiro, temos que ver
qual o nível de relação que tem com essa criança?
O que está havendo com essa figura paterna? Existe provavelmente
se for o pai, o causador dessa atitude, dessa agressividade, alguma
coisa na estrutura dessa pessoa não é normal. Desde
uma patologia psiquiátrica, uma alteração esquizofrênica,
um quadro depressivo. É muito comum entre os depressivos
eles exterminarem os familiares, os filhos, ou, esposa, ou, marido.
Midiamax – Por que?
Luiz Carlos Valim - Na verdade eles não querem
que as pessoas a sua volta passem por esse sofrimento, que para
eles é viver, matando-as. Não se sabe se pode ser
esse o caso. Mas, pode ser também a estrutura de caráter,
o comprometimento na estrutura moral e ética da pessoa. A
gente vai entrar nos casos da psicopatia. São casos muito
mais graves porque a moral da pessoa que comete o crime é
totalmente a parte. Ela está totalmente excluída da
sociedade comum. As regras que valem para mim e para você
não valem para ela. A ética dela é totalmente
particular, as regras de moral dela são particulares e só
dizem respeito a ela e não dizem respeito ao conteúdo
social. Ou seja, desde as doenças mentais mais comuns. Uma
esquizofrenia, um quadro depressivo, ou você pode cair nos
casos mais graves que são o transtorno de caráter.
Midiamax – Há tratamento?
Luiz Carlos Valim – Não existe tratamento.
Se é um transtorno de caráter, uma psicopatia, a pessoa
está condenada. Tem a ver com a estrutura moral dela que
não se forma. Não tem uma estrutura moral. Na verdade,
a questão da psicopatia é uma questão de regressão
muito importante. Esvaziar a afetividade, o esvaziar de importância.
O outro deixa de ter importância. Eu sou o centro e o outro
nada mais é do que alguma coisa acessória. É
muito comum nos casos em que a criança é maltratada
e que podem chegar a morte, os pais perderem a cabeça no
momento de correção. Eles perdem o controles sobre
o ato corretivo e acabam machucando a criança.
Midiamax – No Caso Isabella pode ter ocorrido
isso?
Luiz Carlos Valim – De repente fugiu ao controle
e o pai acabou machucando e quando viu que machucou, para tentar
encobrir aquilo que de errado aconteceu, criou-se um crime para
justificasse os danos ocorridos na criança.
Midiamax – As informações sobre
o pai de Isabella são de que ele sempre teve do bom e do
melhor e não há histórico de maus-tratos contra
a menina. Parece que o pai sempre foi muito carinhoso, bom pai...
Luiz Carlos Valim – Na hipótese de
te sido ele, pode ter acontecido alguma coisa que o tenha levado
a uma atitude inadequada e no momento que aconteceu perdeu a maneira
de lidar e o contato com a realidade e ficou em desespero e ficou
cada vez pior a história.
Midiamax – Nós vemos no dia-a-dia muitos
casos tão graves quanto esses que tomam conta das casas das
famílias mais humildes e não ganham tamanha repercussão...
Luiz Carlos Valim – É justamente isso
que a gente vê. Quantas crianças são maltratadas
no Brasil hoje? Quantas crianças estão expostas a
essa situação? O abuso sexual entre a família
é coisa mais comum do que se imagina. Normalmente o agressor
está dentro da família. É o pai, a mãe,
ou alguém muito próxima da criança que tem
afetividade muito próxima a pessoa agredida. É muito
comum porque na verdade não vira estatística. As pessoas
não dão esse valor todo como está acontecendo
com o Jornal da Globo se envolveu e está lidando com isso
tudo. Outra coisa importante que já foi falado também
no jornal que foi lembrado o caso dos donos da Escola Base (*) que
foram acusados de que abusavam das crianças e no final não
foi nada disso. E a vida deles foi destruída depois que o
caso parou na mídia toda. É importante que seja tomado
cuidado em relação a isso. Por mais que existam indícios
de que possa ter sido por parte do pai, você poder falar que
existe quando tiver a certeza. Os laudos colocaram feridas que demonstram
que o crime foi cometido por um adulto, o tamanho na mão
da garganta da criança é de adulto. Então como
a criança acabou morrendo é muito mais complexa do
que simplesmente se pode imaginar.
Midiamax – Se foi o pai o autor, como deve
estar a cabeça dele?
Luiz Carlos Valim – Se ele não tiver
doença mental, ele deveria estar extremamente arrependido.
Algum sofrimento moral e pessoal ele tem que ter. Se, não
existir comprometimento ética e moral dele, nenhuma patologia
mental.
Midiamax – Se existe uma patologia, ele pode
estar acreditando que não foi ele? Uma carta foi escrita
por ele jurando que jamais teria coragem de fazer algo ruim contra
a filha.
Luiz Carlos Valim – Na verdade, se existia
uma patologia como a esquizofrenia, a doença justifica o
ato. Uma atitude delirante, um transtorno de pensamento. A agressão
aconteceu no contexto que só existe na cabeça do agressor.
Por que? No caso de um psicopata que está moralmente comprometido
na sua ética, na sua estrutura o que foi feito foi feito
porque tinha que ser feito e por si só ele se justifica.
Midiamax – Não há um ressentimento?
Luiz Carlos Valim – Nenhum. Foi feito porque
tinha que ser feito. E tem uma lógica toda especial própria
do individuo que justifica isso que ele não tenha remorso.
Não tem arrependimento porque ele é vazio afetivamente.
Agora, se não é caso de patologia, nem de transtorno
de caráter, esse individuo tem que estar sofrendo muito.
Moralmente e pessoalmente ele está num sofrimento intenso.
Midiamax – O senhor acha que a polícia
brasileira está preparada para investigar e desvendar esse
caso?
Luiz Carlos Valim – Não tenho dúvida.
Temos muito bons peritos não só na área da
Medicina Legal como bons peritos psiquiatras para saber identificar
o que realmente ocorreu.
Midiamax – Em entrevista à Record,
o promotor disse que uma testemunha importante no caso é
o irmão de Isabella. Mas, o menino tem apenas 4 anos. Ele
considera uma violência ter que ouvir e coletar informações
do menino. Qual a sua opinião sobre isso?
Luiz Carlos Valim – Isso é controverso.
Se essa for a única fonte de informação para
você solucionar um crime, o menino vai ter que ser exposto,
da melhor maneira possível ele vai ter que ser exposto. Claro
que com a presença de um psicólogo, de um profissional
de saúde mental. Essa criança vai ter que se amparada,
uma série de coisas para que isso seja feito. Se for necessário,
deve ser feito da melhor maneira possível. Não tem
como se é uma peça chave para solucionar uma situação
em que a vida de uma pessoa foi colocada em risco e ela acabou morrendo
não tem como afastar porque é uma criança.
Claro que ela tem que ser amparada para que passe por isso com menor
dano possível.
Midiamax – Qual o conselho dos pais quando
percebem que os filhos têm algum comportamento perigoso?
Luiz Carlos Valim – É muito perigoso
dizer isso. Se perceber um transtorno de comportamento tem que procurar
ajuda pra saber qual a raiz do problema. Pode ser a mais variável
causa desde trauma até patologias que estejam se estruturando
na vida da criança. Existem alterações mentais
que começam muito cedo. É preciso tomar muito cuidado
com isso pra ver se essa criança tem alteração
de comportamento, ela é maldosa, o que é ser maldoso?
Em que contexto isso está acontecendo? Muitas vezes a agressão
é uma defesa. A criança agride como uma maneira se
defender. Tem que entender o contexto que isso está acontecendo.
Quando a criança é agredida ela se fecha, na verdade
ela pode nem se tornar uma agressora. A criança que foi abusada
de forma grave, seja ela fisicamente ou sexualmente, tem uma grande
chance de se transformar num indivíduo que vai abusar também.
Midiamax – Qual a influência da exposição
em demasia a filmes violentos à internet. Esse estímulo
tanto sexual e de violência influencia?
Luiz Carlos Valim – Na verdade o que ocorre
hoje é a banalização. Você está
tão acostumado a ver coisas que deveriam deixar escandalizado
que você vê com tanta freqüência que acaba
ficando anestesiado. Muitas vezes os padrões de comportamento
vão se alterando em função da sociedade. Por
exemplo, uma sociedade que vive tão voltada para o consumo,
a perda de valor é uma coisa comum. Você deixa de cuidar
do pessoal para consumir muito. Se uma sociedade é violenta
e uma pessoa é valorizada pela força que ela exerce
sobre a outra, ela deixa de ver a violência como algo ruim
e vê a violência como símbolo de poder e status.
Midiamax – A desestruturação
familiar fica clara diante de uma tragédia envolvendo membros
da família...
Luiz Carlos Valim – Com certeza. Uma desestrutura
individual afeta toda uma estrutura. Não tenha dúvida.
(*) Escola Base - O caso Escola Base aconteceu em
1994. A mídia denunciou seis pessoas por abuso sexual no
colégio de São Paulo com base somente nas versões
policiais sem a confirmação dos fatos. Os acusados
acabaram inocentados pela Justiça.
Considerações
Importantes
As
notícias, artigos e recursos de terceiros dispostos neste
site não necessariamente estão de acordo com a opinião
da Diretoria do Projeto Diga Não ao Bullying. Da mesma mesma
forma, em razão de ser mantida a redação original
das fontes desses materiais, não nos responsabilizamos por
possíveis erros técnicos e/ou gramaticais.
|