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Violência
gratuita
Cada vez mais, pessoas são vítimas de humilhações
e agressões covardes, em escolas e empresas
Ciça
Vallerio (O Estado de São Paulo)
O termo “bullying”, que se refere ao
ato de cometer violência física ou psicológica,
é ainda confundido com uma simples “brincadeira infantil”.
Esta má interpretação só ajuda a disseminar
este tipo de violência, que, a cada ano, atinge um número
maior de estudantes, conforme observa Cleo Fante, consultora educacional,
pesquisadora desse assunto e vice-presidente do Centro Multidisciplinar
de Estudos e Orientação sobre Bullying Escolar, o
Cemeobes, com sede em Brasília. Estima-se que, no Brasil,
45% dos estudantes estejam envolvidos em situações
de bullying, problema que afeta qualquer classe social.
As características típicas dessa prática
são: hostilizar um colega de sala de aula de forma repetitiva
e planejada, manifestando preconceito e intolerância às
diferenças; perseguir continuamente alguém até
transformá-lo no “bode expiatório” da
turma, agredindo-o por meio de apelidos jocosos, intimidação
psicológica e física, e isolamento do convívio
com os demais. Essas atitudes não se assemelham em nada a
brincadeiras típicas da idade, as quais são pontuais
e relacionam-se apenas à disputa por um brinquedo ou espaço,
com xingamentos, mordidas, socos e ameaças passageiras.
“São poucos pais e professores que
estão atentos ao problema e que têm noção
da sua gravidade”, avisa Cleo, autora do livro Fenômeno
Bullying: como Prevenir a Violência nas Escolas e Educar para
a Paz (Editora Verus). “Os casos concentram-se no ensino fundamental,
faixa etária em que os papéis começam a se
consolidar. Nessa época de desenvolvimento emocional, sensorial,
cognitivo e sócio-educacional, quem é vítima
desses abusos pode introjetar características específicas
quando adulto, assim como quem é autor das agressões.
O fenômeno é destrutivo e não cessa com o fim
da adolescência.”
Diante da dinâmica repetitiva de abusos, a
vítima tende a se tornar agressor no futuro, como forma de
vingança e revolta, levando a agressão para vários
ambientes sociais, tais como a família, o trabalho e a vida
pessoal. Em outros casos, a criança que não supera
as humilhações durante os anos de escolaridade acaba
desenvolvendo problemas psicológicos, tais como insegurança,
complexo de inferioridade, estresse, depressão, fobias, entre
outros, incluindo tendência suicida. Sentimentos que são
levados à vida afetiva - causando, por exemplo, falta de
confiança nos parceiros. No trabalho, a vítima pode
apresentar dificuldades para resolver conflitos, tomar decisões
e ter iniciativas, transformando-se, mais uma vez, presa fácil
do assédio moral entre os colegas da empresa.
A pesquisadora lembra que agressores se munem do
sofrimento das vítimas para ganhar popularidade na turma.
Segundo Cleo, esse é o jeito que encontram para conquistar
sucesso, fama e poder a qualquer preço. “Ignorá-los
é dar espaço para o surgimento de possíveis
tiranos, uma vez que são desprovidos de sentimentos como
generosidade, solidariedade, afetividade e compaixão. Quando
adultos, vários deles acabam praticando violência doméstica
e sendo autores de assédio moral no trabalho, também
conhecido por bullying. Outros adquirem propensão para se
envolver na criminalidade.”
FÓRUM
Atentos à questão, orientadores educacionais
do Colégio Santa Maria promovem aulas especiais, em todos
os anos letivos, para tratar de bullying. Selma Pietro Colla cuida
da turma do oitavo ano. “É um problema que vem se acentuando,
infelizmente. Independentemente do sexo, o bullying aparece como
forma de preconceito em qualquer idade ou classe social.”
A partir de observações e, raramente,
de denúncias - já que as vítimas não
têm coragem de se expor -, a orientadora educacional não
deixa passar batido episódios de bullying na turma. “Chamo
os alunos envolvidos e, se necessário, a família.
Ao conversar com os pais, noto que, apesar de se posicionarem a
favor da escola, o preconceito está presente entre eles também.
É muito difícil um jovem ser preconceituoso sem um
modelo forte dentro de casa, na família ou entre amigos.
Em algumas situações, indico terapia à vítima,
já que é o tipo de abuso que vai minando com a auto-estima
e as defesas.”
Vítima de bullying, Fernando Coutinho, de
9 anos, aprendeu na marra a lidar “diplomaticamente”
com seus algozes - uma turma que há anos o provoca com agressões
físicas e morais, só porque o garoto usa óculos
de grau alto. “No começo, sofria, agora até
fico chateado, mas aprendi a não ligar tanto, a virar as
costas e ir embora. Alguns me batem, aí aviso ao monitor,
que faz a ficha deles, mas não adianta. Aviso à professora,
que dá bronca, mas o grupinho continua. Eles me colocavam
no gol só para acertar meus óculos com a bola, então
parei de jogar.”
Por sorte, Fernando tem um bom respaldo em sua casa.
A mãe, Tânia, sempre conversa com ele sobre o problema,
mostra como é importante conhecer suas qualidades pessoais
para não sucumbir às agressões dessas crianças
cruéis. E se tem uma coisa que distingue Fernando - o que
foi notado durante a conversa - é sua educação,
inteligência, simpatia e coragem. Afinal, é raro alguém
que sofre bullying mostrar o rosto em uma reportagem. “É
duro para a gente, que é mãe, ver o filho sofrer tamanha
brutalidade”, confessa Tânia. “Por várias
vezes, ele voltou para casa chorando. Mas como ele é um garoto
esperto, está aprendendo a ignorar as provocações
e, ao contrário de muitos, não se intimida em denunciar
essa turma de covardes.”
Na sociedade atual, repleta de falta de respeito
ao próximo, intolerância e compaixão, bullying
é o tipo de assunto que não vai se esgotar tão
cedo. Recentemente foi lançado o livro infantil (o qual também
serve para adultos) E se Fosse com Você? (Editora Melhoramentos).
A autora Sandra Saruê, que é redatora publicitária,
revela o problema por meio de uma história - muito parecida,
aliás, com a do próprio Fernando.
“Como tenho dois filhos, passei a monitorar
o que eles viam na internet e encontrei muitas comunidades no Orkut,
criadas para difamar, perseguir e humilhar os colegas da escola”,
revela a autora. “A partir daí, comecei a estudar sobre
bullying e percebi que há pouca literatura que leva o tema
às crianças. Descobri também que é o
tipo de problema que demora para vir à tona, já que
quem sofre reluta em pedir ajuda, e professores e pais custam a
perceber.”
A própria escritora Sandra Saruê foi
vítima de bullying, numa época em que não existia
um termo específico para isso. Aos 12 anos, como era a gordinha
e cheia de espinhas, recebia um monte de apelidos, ouvia piadas
e vivia arrasada por ser discriminada pelas próprias amigas.
Quando adulta, se encontrou com a turma numa dessas reuniões
de escola: bonita e feliz com suas vidas profissional e pessoal,
notou que, aquelas que a provocavam, estavam “acabadas”.
ORKUT
Usar mão da internet para agredir é
a nova arma da garotada - ato que até ganhou o nome de cyberbullying.
O assédio moral por meio da tecnologia é tão
ou mais perverso do que o método “corpo-a-corpo”.
O abuso adquire projeção ainda maior e se transforma
num tormento público. O advogado Caio Eduardo de Aguirre,
da Fialdini Advogados, foi consultado recentemente por um pai que,
desesperado, tentava ajudar a filha de 12 anos, vítima da
“gozação” via Orkut, em uma página
criada por suas coleguinhas de escola.
“Ele queria tomar medidas judiciais contra
as autoras das ofensas feitas à filha, como, por exemplo,
comentários maldosos a respeito das características
físicas da pré-adolescente”, conta Aguirre.
“Expliquei que, por serem menores, não seria viável
entrar com ação criminal. Ele também pensou
em um eventual pedido de indenização aos pais das
garotas, a fim de ressarcir os danos morais causados à filha.
Mas o juiz provavelmente veria o problema como dissabores corriqueiros,
aos quais todos estão submetidos, principalmente na infância.
A única maneira que vi foi orientá-lo a entrar no
próprio Orkut, que disponibiliza uma sessão de denúncia
desse tipo de abuso, para tirar a página do ar.
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